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ARTIGOS
Deepachulli – Uma estória de vôo
Autora: Vimukta

Partimos de Pokara, a pequena cidade abençoada pelo enorme lago. A expedição partira bem cedo pela manhã, éramos cerca de dez pilotos. O jeep totalmente lotado com nossas mochilas mágicas, que em algum lugar se abririam para nos levarem ao espaço, que estaria lá, em algum lugar, esperando por nós. Tudo o que queríamos era buscar a benção de Shakti, nossa mãe natureza. Shakti nos proporcionava tanta alegria, beleza, surpresa e mistério, que nos excitava a todos. Shakti, vista do mundo aéreo, era algo fenomenal. Se pudéssemos enxergar nossos campos energéticos, só de pensar, veríamos nossas moléculas agitadas dançando felizes, fazendo o campo magnético de nossa áurea ao redor do corpo. Alguns uma dança harmoniosa, consciente, outros uma dança frenética, desordenada, inconsciente.

O jeep seguiu pela pequena estrada sinuosa de asfalto precário durante várias horas, até que chegamos nos limites do Parque Nacional de Chitwan, maior reserva ecológica do Nepal, onde vivem rinocerontes, elefantes e tigres, dentre outros animais selvagens. Um dos últimos lugares do mundo onde realmente podemos vê-los em seu habitat natural.

Um rio fazia divisa com a floresta misteriosa que se insinuava ao longe. Assim que chegamos, fomos cumprimentar os dois elefantes que trabalhavam para o dono da hospedaria, acorrentados em suas enormes patas, sub-julgados pelos homens. Abraçar a trompa de um elefante é algo emocionante... traçar uma relação afetiva com um animal tão grande, tão poderoso e ao mesmo tempo tão dócil. Comecei a compreender porque o elefante na mitologia hindu é considerado tão sagrado. Representado por Ganesha, o guardião da kundalini, da força e do poder, símbolo da pureza e da inocência, o elefante faz jus à sua posição. No fundo do seu olhar existe uma alma de grande amor, mergulhado na inocência de sua força.

O grupo cumprimentou e fotografou os elefantes, logo se afastando para irem lanchar. Eu e Zabdi, uma pilota da Escócia, permanecemos lá, abraçando e beijando o elefante, querendo um contato maior. O rapaz tratador dos elefantes, depois de algum tempo assistindo nosso interesse, nos convidou então para darmos uma volta e levarmos o elefante para tomar banho de rio. Nossos olhos brilharam e abrimos um sorriso entusiasmado! Ele nos ensinou como montarmos no enorme gigante a pelo nu, segurando a parte superior de suas duas enormes orelhas, uma com cada mão e puxando-as para frente. O elefante então logo oferece sua enorme e exuberante tromba para montar, te fazendo erguer no ar até o topo da sua cabeça, para montar através de sua testa e galgar até sua corcunda. E assim fomos nós, eu e Zabdi, de calcinhas, a pelo nu, montadas no elefante! Não demorou, vieram todos atrás, e em poucos minutos estávamos todos na água nadando com o gigante de 3 toneladas, que deitava e rolava com a gente, e fazia a alegria de um dia inesquecível. Nadamos e brincamos até nos cansarmos e o elefante partiu satisfeito de volta para seu posto.

Naquela noite dormi tão feliz! Pela manhã, acordamos cedo, eu e David, e fomos dar uma volta no dia que amanhecia com uma neblina rasteira. Não muito longe dali, nos surpreendemos ao encontrar uma mamãe elefante com seu lindo filhotinho de seis meses, que moravam numa hospedaria do Parque. Não é para menos que nos deleitamos em brincar com a pequena criatura recém chegada no mundo, tão curiosa e amável. O filhote deixava a mãe de lado e com sua tromba não parava de nos beijar e cheirar. Um elefantinho de pelo menos uns trezentos quilos, queria derrubar a pequena cerca que nos separava para poder brincar mais livremente! E como desejávamos pular a cerca! Tínhamos tanto para brincar com os poucos momentos que nos restavam antes de partir! Mas era preciso seguir viagem, a enorme montanha que avistávamos ao longe, no horizonte, nos esperava. Fomos embora emocionados com a beleza da pequena criatura.

Depois de uma longa estradinha que subia e subia por horas a fio, toda esburacada do jeito que eu gosto e parecendo não ter mais fim, chegamos na rampa. Há quase dois mil metros de altitude o visual era inigualável a qualquer outra rampa que tentássemos comparar. Toda a cordilheira do Himalaya se estendia às nossas costas, à nossa frente, todo o Terai, a plataforma linear das plantações de arroz, que iria fazer divisa com as fronteiras da Índia. Tínhamos o ângulo mais abrangente do Nepal para voar, enormes montanhas por todos os lados e diversas cordilheiras ao redor. Podíamos avistar quase toda a extensão do pequeno país de gnomos. O lugar era incrível, mas ao mesmo tempo amedrontador por seu poder e virgindade. Definitivamente, o lugar era somente para pilotos experientes, pois abaixo se estendia uma longa floresta até o final do vale onde não podíamos avistar pouso com segurança a perder de vista, e a menos de algumas horas de caminhada até a estrada mais próxima. O que significava que naquele primeiro dia, teríamos infalivelmente, que pousar na rampa ou nas proximidades dela, caso contrário, se perdêssemos altitude, teríamos que seguir direto para o Terai para pousar. E reencontrar o grupo no dia seguinte, quando todos estivessem voando no caminho de volta.

Decolamos todos. A rampa, o topo da montanha gramada, não poderia ser mais perfeita. Os parapentes alegremente enfeitaram o céu. Nos espalhamos pelo azul em diferentes direções, explorando timidamente as montanhas. Vasculhando daqui, vasculhando dali, encontramos as térmicas que nos possibilitaram pousar no topo sem nenhuma perda no grupo. Regozijados, logo o pôr-do-sol fez-se colorido na pureza de Deepachulli, o vilarejo perdido entre as montanhas do Nepal. Meu coração encharcado por tanta beleza, transbordava sentimentos de amor e gratidão à Paramapurusha, à Consciência Cósmica, ao amor divino, à todos os seres. Quanta generosidade do Criador permitir-me experimentar a vida de tal maneira.

David aproximou-se com seu sorriso habitual e fazendo alguma graça, ele sabia de meus sentimentos a Paramapurusha. Mas não podia deixar de gargalhar com sua voz rouca e sotaque francês enquanto eu lhe dizia - pois nada habitual é as pessoas falarem do amor divino. E como quase tudo na vida, ele também acha isso muito engraçado! Eu estava mergulhada na beleza daqueles singelos momentos. E mais feliz ainda por encontrar não apenas o amor subjetivo de minha alma, mas também o amor objetivo, bem ali ao meu lado, - vivo, em carne e osso, pura expressão de alegria e felicidade - ele em pessoa. E assim se eternizava a eternidade! Quantas bênçãos do amor divino! Benção que por experiência própria, descobri que se dá na medida da entrega. Na entrega sobretudo ao amor a Deus.

Já fazia algum tempo eu vinha praticando a entrega, embora ainda tivesse muito mais a entregar, queria entregar a Deus o que de fato pertencia a Ele, minha vida. Da mesma forma queria entregar-me ao amor humano, em profundo espírito de reverência pela beleza do amor. Mas primeiramente, vinha a entrega à Paramapurusha, ao amor divino – Ele, o doador da vida - e então outras formas de amor, trazendo cor e música às formas. Quando, na presença do Provedor Central, tudo é sempre providenciado. Como mágica, o Provedor sabe de todas as nossas necessidades. E assim, progressivamente, por experiência própria, vamos percebendo a verdade da sabedoria dos mestres. Que vieram a este planeta disseminar suas mensagens sobre a existência do mundo espiritual, que atua em nossas vidas.

O Pai, em seu infinito amor, não deixa que o filho que O procura fique sem respostas. “Busques e encontrarás, bata e porta se abrirá”, nos disse o mais sábios dos sábios, mestre Jesus. Pois o Pai, a cada passo do filho, em seu esforço, em Sua direção, dá mil passos também ao seu encontro. Enquanto pensarmos que estamos longe, estaremos longe, quando descobrirmos que tudo está dentro de nós, estará dentro de nós. Tudo está em toda parte, dentro e fora. A maior alegria para o Pai, é que o filho seja também Pai. Eu e o Pai somos Um. Não existe diferenciação real, no mundo do espírito somos todos Um, parte da Consciência Suprema.

A maior alegria para o verdadeiro mestre é que o discípulo torne-se também mestre. Tal qual velha sabedoria: o verdadeiro mestre não é aquele que possui mais discípulos, mas aquele com capacidade de formar mais mestres. O verdadeiro professor não é aquele com maior número alunos, mas aquele capaz de formar novas consciências. Assim, a maior alegria para Deus é que nos tornemos mestres criadores de nossa própria vida, que nos tornamos tal como Ele, que possamos reconhecer a divindade que existe não apenas em nós, mas em tudo que nos cerca, em todas as pequenas e infinitas formas e criaturas. Eis o porquê do livre arbítrio, para nos tornarmos tudo o que desejarmos. Porque a maior alegria é a liberdade de ser e de existir, de criar a vida. O amor supremo é libertador. O verdadeiro amor jamais aprisiona suas escolhas, mas lhe permite enxergar da maneira que desejar, no processo de sua evolução. O amor supremo não está nas religiões, não está nas fronteiras, mas muito além delas. Para o amor supremo nada está fora da Consciência Cósmica que nos rege, quer tenhamos conhecimento ou não, pouco importa, pois nem mesmo o intelecto nos diferencia. Estamos todos dentro de uma mesma nave mãe no cosmos. Nunca nem mesmo estamos sós ou desacompanhados, a mesma força que guia as estrelas, está dentro de nós também. Nada disso é novidade, a diferença está apenas em nos lembrarmos.
Fora em minhas divagações no entardecer, em poucos minutos de minha oração silenciosa, que pedia a Deus para que eu pudesse sempre me lembrar, que não me permitisse esquecer a divina presença da vida em todas as pequenas coisas. Que eu não pudesse esquecer a beleza que existe, a beleza de que tenho sido testemunha. Que eu pudesse reconhecê-lo mesmo no ar que respiro. Mesmo que eu não estivesse meditando todos os dias e com disciplina, que eu pudesse senti-Lo sempre junto de mim, onde quer que eu fosse e em todos os seres. Porque meditação é sobretudo um estilo de vida que se incorpora numa nova forma de sentir profundamente a plenitude do momento presente, em amor e gratidão. Que eu pudesse sempre reconhecer as bênçãos da vida, e jamais esquece-Lo nas formas dos mais variados mestres que trouxeram luz ao planeta...

Montamos acampamento ao lado da estrada, nas proximidades do vilarejo, onde podíamos garantir um jantar típico, o velho dalbat: arroz, lentilhas e vegetais, que a cada dia tornava-se mais íntimo e saboroso. Mas todos estavam mesmo é felizes ao sabor da juventude. A luz do lampião, dentro do humilde casebre com telhado de palha, gerava sombras avermelhadas na parede de barro e reflexos mágicos no ar. A refeição tinha o gosto de comida à lenha e da inocência das montanhas. Ao grupo de franceses não faltou nem mesmo um copo de vinho regado a queijo de búfalo como sobremesa, trazido como regalo para ocasião especial.

Voltamos para nosso acampamento, a noite ventava gelada, mas não me impediu nem mesmo de fazer uma rápida massagem nos pés de Zabdi, instrutora de vôo livre que também mora no Nepal e trabalha com o David. Zabdi fazia um olhar de criança marota e carente abandonada à luz das estrelas. Dentro de seu poderoso saco de dormir ao relento, mostrou-me que seu saco tinha um zíper especial para os pés, ideal para massagem! Eu, como havia comprado dez litros do óleo sagrado de dhila, dedicado aos pujas, passava óleo em todo mundo!

Com o frio, dentro de nossa barraca, eu e David nos abraçamos tão forte. Aquela era a sua vida, vivia em constante contato com a natureza, e há sete anos a explorar as montanhas do Nepal. Com o passar do tempo, a cada dia ia descobrindo nele uma pessoa mais maravilhosa, me dando conta do porte de sua alma.

O dia amanheceu também gelado, o aconchego do ninho demorou a fazer-nos querer levantar. Passeamos pelo vilarejo, desmontamos acampamento e já seguia o jeep de volta para a rampa de vôo. Deixei o jeep e fui caminhando sozinha pelas trilhas. Quando lá cheguei, já era hora de preparar para a decolagem. Fui a última a decolar, e assim seguimos todos pelo espaço, enroscando nas térmicas invisíveis. A ascensão não estava muito fácil, precisávamos ganhar altura para seguir rumo ao grande pico insinuante que se estendia ao fim da Cordilheira. Quem sabe, se tivéssemos sorte, poderíamos chegar até lá.
Os parapentes coloriam o céu de Deepachulli. David foi o primeiro a fazer a tirada, eu fui logo atrás. A imensidão do vale virgem nunca antes voado se estendia a nossos pés. Encontrar as térmicas exigia concentração máxima, especialmente porque não queríamos perder altitude e ter que pousar longe da estrada ou na mata. Por isso, mas do que nunca, necessitávamos da pulsão das térmicas para nos levar adiante. Depois de mais de uma hora de vôo, finalmente nos aproximamos do grande pico insinuante. Alguns pilotos ficaram pelo caminho, pousaram em segurança, porém não conseguiram ganhar altitude suficiente para continuar voando. De frente ao enorme pico pedregoso e vertiginoso, encontrei uma térmica que me levou nas alturas. Eu e Celine, pilota suíça, enroscamos juntas, sincronizando na térmica, passamos dos dois mil metros de altitude e seguimos sobrevoando o pico. Por trás dele, um paredão de dar arrepios a qualquer pessoa que aprecie escalada. O vento fazia pressão e choacalhava o velame do parapente. Que gostinho de vitória, conseguir ganhar o pico! Porém, a vista do paredão me desconcentrou, enrosquei mais algumas vezes sobre o pico e saí batida em direção à montanha vizinha, quase sem perder altitude, apreciando o recorte das montanhas nevadas no azul a perder de vista, e todo o Hilamaya recortando o fundo da paisagem.
Pela primeira vez aquele pico era voado por parapentistas no mundo, isto dava um gostinho especial de descoberta. Mas que, sem dúvida, não invalidava o vôo dos pilotos que ficaram pelo caminho, já que o mais importante é sempre voarmos, decolarmos e pousarmos com segurança. Pois o vôo, o céu, sempre vai estar lá nos esperando. E só o fato de podermos voar já é motivo de pura alegria.Várias térmicas foram necessárias para chegarmos até lá, e como é gostoso e indescritível encontrar as térmicas!

Seguimos rumo ao Terai, o fim da tarde aproximava-se, precisávamos garantir um pouso seguro antes que as térmicas enfraquecessem e perdêssemos altitude para a longa distância que precisava ainda ser percorrida. Multidão de nepaleses corriam pelos campos ao avistarem aqueles estranhos seres, jamais vistos, aproximarem-se pelos céus. Centenas de crianças corriam ao nosso encontro, éramos o centro das atenções, o espetáculo e curiosidade para o povo da vila. De fato, isto acontece na maioria de nossas expedições, tal qual extraterrestres vindos do espaço! Os nepalis sempre ficam excitadíssimos com a novidade, que para a vida simples dos vilarejos, é um acontecimento fenomenal. Desconfiados ou curiosos, eles querem tocar tudo, capacetes, linhas, roupas, pra ver se somos reais. Que nem coelho, aparece criança de todos os lados. Este é o país onde mais se procria no mundo! E então vem a salvação de algum adulto que sempre aparece gritando com uma vara na mão e espantando todos eles, que saem correndo, pulando e gritando também. Tal qual estrelas de cinema, tínhamos que nos proteger para buscar um pouco de espaço. Olhos curiosos estavam por toda parte, e um falatório no linguajar matuto, sorrindo, ingenuamente incrédulos por nossas peripécias no céu.

O jeep mais tarde chegou resgatando a todos pousados pelo caminho, no Terai. Por sobre os parapentes, montamos todos no teto do jeep, até onde pudéssemos encontrar um lugar sossegado para arrumar melhor o equipamento. Seguimos imersos em alegria de volta rumo à floresta, onde passaríamos a noite. Seguimos por estradinhas que não acabavam mais, que mais parecia zigue-zagueando ou rodando em círculos, cruzando os vilarejos perdidos no tempo, até chegarmos onde não mais podíamos cruzar o rio que fazia divisa com a floresta selvagem. Passamos a noite em agradável cabanas instaladas à beira do rio. Tomar banho, naquele dia, foi uma experiência extasiante. Depois de horas comendo poeira, o contato com a água gelada do humilde banheiro instalado em paredes de bambu, foi divino, e então uma comidinha quente preparada com carinho, ao som ameaçador da floresta escura, para arrebatar! O som da noite era ameaçador, sabíamos que aquela floresta era recheada por tigres e rinocerontes. Pela manhã, dito e feito, fomos fazer um safári de elefantes pela floresta, e lá estavam as enormes pegadas dos tigres que vieram beber água, a menos de duzentos metros de onde dormimos. E tivemos um emocionante encontro com um rinoceronte selvagem, que nem se importou com a nossa presença, já que nos aproximamos em nossos elefantes. Que animal pré-histórico mais incrível! Mais tarde, dentro do parque fomos visitar a criação de crocodilos, onde vivia também um tigre órfão, mas o ápice foi encontrar um casal de rinocerontes também órfãos e domesticados. Nunca antes eu pude me imaginar beijando e abraçando rinocerontes em minha vida. A rinoceronte fêmea chamava-se Sundari, meu nome em Nepali! Eu e Sundari nos amamos e nos beijamos profundamente na despedida, jamais poderei esquecer seu beijo tão amoroso! Jamais poderei esquecer nosso primeiro encontro, não vejo o dia de poder voltar lá e poder revê-la, tal qual meu pequeno amigo filhote elefante. No próximo mês quando voltarmos, certamente, levaremos muitas bananas de presente!


Trechos do livro: Uma Brasileira no Himalaya
(em construção)